Edition 81
Praticando a Economia Ccicular e o Desenvolvimento Sustentável Com Resíduos Recicláveis: Um Estudo De Caso Aplicando Um Siste
by Biazini, Ribeiro, Oliani, Wajc, Hauser-Davis , various, various

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Neste artigo abordamos os desafios da economia circular e do desenvolvimento sustentável, principalmente no que tange aos resíduos e desperdícios e os impactos que promovem nos negócios e no ambiente. Apresentamos soluções e inovações para a gestão de resíduos e viabilizam a logística reversa pós consumo e a reciclagem. Apresentamos o case da implantação da REDERESIDUOS na URBAM (Urbanizadora Municipal S.A.), responsável pela gestão integrada de resíduos sólidos na cidade de São José dos Campos – SP, com o desvio do aterro de mais de 7 mil toneladas de materiais, que retornaram para a cadeia de produção, e demonstramos que as receitas financeiras respondem por menos de 50% do montante de receitas e benefícios da reciclagem, para qualquer material.

INTRODUÇÃO
Vivemos uma intensa transformação na sociedade, com reflexos profundos na economia. Ao mesmo tempo que a globalização e as novas tecnologias ampliam o universo de cidadãos, consumidores e empresas, tornam-se também mais evidentes os impactos sobre os limites planetários e a premência da inclusão social. O enfrentamento desses desafios marcará as próximas décadas e definirá um novo cenário no mundo dos negócios, com grandes oportunidades para empresas inovadoras sintonizadas com as demandas que emergem e as novas possibilidades para atendê-las. Nos próximos anos, várias grandes corporações da atualidade terão se tornado obsoletas, enquanto empresas que hoje engatinham florescerão1.

Nosso foco de atuação são os desafios da economia circular e do desenvolvimento sustentável, principalmente no que tange aos resíduos e desperdícios e os impactos que promovem nos negócios e no ambiente. São necessárias soluções integrando inovações e o estado da arte na gestão de resíduos, para viabilizar a logística reversa pós consumo, a reciclagem, a compostagem de orgânicos, a responsabilidade compartilhada e o pagamento por serviços ambientais.

Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS)2
Após 21 anos de negociações e ampla participação social, foi instituída a Política Nacional de Resíduos Sólidos - PNRS pela Lei nº 12.305, de 02 de agosto de 2010. A PNRS, em seu artigo 1º, já diz a que veio: disciplinar a gestão integrada e o gerenciamento dos resíduos sólidos, fazendo uso de princípios, objetivos e instrumentos que a viabilizem, e atribuindo responsabilidade aos geradores, ao poder público e às pessoas físicas ou jurídicas responsáveis, direta ou indiretamente, pela geração de resíduos sólidos e as que desenvolvam ações relacionadas à gestão de resíduos sólidos. Com uma abordagem moderna, a lei apresenta três conceitos cruciais:

• Gestão integrada dos resíduos sólidos;
• Responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos;
• Logística reversa.

Papel do titular dos serviços públicos de limpeza urbana
Ainda no âmbito da responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos, cabe ao titular dos serviços públicos de limpeza urbana e de manejo de resíduos sólidos, observado, se houver, o plano municipal de gestão integrada de resíduos sólidos:

• Adotar procedimentos para reaproveitar os resíduos sólidos reutilizáveis e recicláveis oriundos dos serviços públicos de limpeza urbana e de manejo de resíduos sólidos;
• Estabelecer sistema de coleta seletiva;
• Articular com os agentes econômicos e sociais medidas para viabilizar o retorno ao ciclo produtivo dos resíduos sólidos reutilizáveis e recicláveis oriundos dos serviços de limpeza urbana e de manejo de resíduos sólidos;
• Realizar as atividades definidas por acordo setorial ou termo de compromisso, mediante a devida remuneração pelo setor empresarial;
• Implantar sistema de compostagem para resíduos sólidos orgânicos e articular com os agentes econômicos e sociais formas de utilização do composto produzido.
• Dar disposição final ambientalmente adequada aos resíduos e rejeitos oriundos dos serviços públicos de limpeza urbana e de manejo de resíduos sólidos.

Urbanizadora Municipal S/A – URBAM
A URBAM (Urbanizadora Municipal S.A.) é a responsável pela gestão integrada de resíduos sólidos na cidade de São José dos Campos - SP, um município brasileiro no interior do estado de São Paulo, pertence à Mesorregião do Vale do Paraíba Paulista e Microrregião de São José dos Campos. É sede da Região Metropolitana do Vale do Paraíba e Litoral Norte. Ocupa uma área de 1 099,6 km², sendo que 353,9 km² estão em perímetro urbano e os 745,7 km² restantes constituem a zona rural. Em 2015 sua população foi estimada pelo IBGE em 688 597 habitantes, sendo o sétimo mais populoso de São Paulo e o 27º de todo o país e segundo município mais populoso do interior do Brasil.

Em 2015, a URBAM atende 95% da malha urbana e 85% considerando malha urbana e rural, tem mais de 3000 colaboradores. São coletados diariamente 550 toneladas de lixo comum e 50 toneladas de recicláveis pela coleta seletiva. Opera a central de triagem com funcionários próprios e comercializa anualmente mais de 7.000 toneladas de materiais, que retornam às cadeias de produção.

REDERESIDUOS
A REDERESÍDUO é uma plataforma online, que inova na logística reversa, gestão e comercialização de resíduos. Tem como objetivo promover a coleta de resíduos, diminuindo o custo das operações e garantindo a gestão e comercialização com valores competitivos.

Por meio dela é possível conectar geradores - que querem vender, trocar, doar ou destinar resíduos - com recicladores, empresas de tratamento e disposição final - que tem como objetivo comprar, reutilizar ou reciclar resíduos – e transportadores, viabilizando a logística das operações.

OBJETIVO
Demonstrar os resultados da implantação de um Sistema de Informação para Gestão da Comercialização dos Resíduos Recicláveis triados na Estação de Tratamento de Resíduos – URBAM, incluindo a automatização do processo de leilão dos materiais.

METODOLOGIA
No segundo semestre de 2014 foi efetuada uma licitação pela URBAM para contratar um Sistema de Informação para Gestão da Comercialização dos Resíduos Recicláveis triados na Estação de Tratamento de Resíduos – URBAM, a empresa vencedora foi a REDERESIDUO, que alocou uma equipe composta de diversos técnicos, que, em conjunto com os técnicos da URBAM efetuaram o processo de implantação, que durou 3 meses, executando as seguintes etapas:

• Capacitação do pessoal na utilização das interfaces do Sistema.
• Suporte aos usuários para utilização eficaz da ferramenta.
• Acompanhamento das oportunidades e negociações cadastradas, compilação de preços e cotações de materiais de forma regionalizada.
• Hospedagem do sistema na rede mundial de computadores internet

Capacitação do pessoal na utilização das interfaces do Sistema.
Foram capacitados 10 funcionários da URBAM na utilização da interface de gestor e de gerador e cerca de 25 usuários recicladores, de diversas empresas que já operavam com a URBAM. Cada empresa recebeu visitas de técnicos da URBAM e da REDERESIDUO.



Suporte aos usuários para utilização eficaz da ferramenta.
Foi disponibilizado suporte online para todos os usuários, por telefone ou acesso remoto, durante o horário comercial. A quantidade de horas de suporte foi reduzida pois o sistema opera de forma simples e intuitiva.

Acompanhamento das oportunidades e negociações
O acompanhamento das oportunidades e negociações, compilação de preços e cotações de materiais de forma regionalizada foi efetuado por técnicos da URBAM em conjunto com os técnicos da REDERESIDUO, em visitas quinzenais de acompanhamento.

Hospedagem do sistema na rede mundial de computadores internet
Foi disponibilizado o domínio urbam.rederesiduo.com para acesso dos usuários cadastrados. Neste domínio foram criadas 3 bolsas de comercialização, a primeira para treinamento, a segunda para operações rotineiras e diárias e a terceira específica para leilão dos materiais de maior interesse.

Bolsa de treinamento
Utilizada para treinamento e simulação pelos usuários.

Bolsa para operações rotineiras
Utilizada para gestão diária e alimentada pelas notas fiscais de venda de recicláveis.

Bolsa para leilão
Utilizada para venda dos materiais de maior interesse comercial. Os materiais objeto de leilão eram leiloados antecipadamente, em lotes baseados na expectativa de produção do mês seguinte e os leilões encerrados antes do dia 20 de cada mês, garantindo que as operações diárias fossem não sofressem solução de continuidade.

Calculadora de externalidades
O sistema disponibiliza uma Calculadora de externalidades que implementa, para cada lote comercializado, a estimativa das externalidades positivas líquidas3, de acordo com a metodologia preconizada pelo relatório final da “Pesquisa sobre o pagamento por serviços ambientais urbanos para gestão de resíduos sólidos” elaborado pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA) em 2010.

RESULTADOS E DISCUSSÃO
Comercialização dos resíduos
Comercializamos, em 12 meses, 912 lotes de resíduos dos diversos materiais recicláveis, na tabela 1 observamos as quantidades por tipo de material, receita auferida e externalidades estimadas.



Contribuímos para promover a transparência na comercialização dos materiais recicláveis com o leilão dos materiais.

Geramos indicadores de forma automática e transparente

Criamos uma rede facilitadora de negócios composta de mais de 30 empresas.

Maximizamos o retorno financeiro através da comercialização de materiais comercializados na bolsa de leilões, com valores cerca de 10% maiores que os lances mínimos estipulados com base em valores históricos, pois participavam de cada certame mais de 10 empresas, em concorrência acirrada.

Atendemos a política nacional de resíduos sólidos com o desvio do aterro de mais de 7 mil toneladas de materiais, que retornaram para a cadeia de produção, num exemplo irrefutável de economia circular. Os dados estão disponíveis para promover a integração ao sistema nacional de informações sobre a gestão dos resíduos sólidos (SINIR).

Agilizamos o fluxo de informações e negociação e a busca de oportunidades de forma proativa, pois o sistema da REDERESIDUO notifica, automaticamente por email, todos os interessados nos materiais.

Aprimoramos a proteção da saúde pública e da qualidade do meio ambiente e a Transparência do processo. A participação social fica suprida com a divulgação das informações em trabalhos acadêmicos e com a publicação dos balanços econômico e socioambientais.

No gráfico 1 demonstramos que as receitas financeiras respondem por menos de 50% do montante de receitas e benefícios da reciclagem, para qualquer material, sendo que para vidro as externalidades atingem 73%, papel 71%, plástico e metal 52%.



CONCLUSÃO
Os benefícios esperados foram alcançados, principalmente no que tange à gestão integrada de resíduos recicláveis, facilitação das rotinas, melhoria na visibilidade e reciclagem ambientalmente adequada dos materiais recicláveis e os valores anuais auferidos garantem a sustentabilidade financeira e operacional do sistema, pois:

• Os materiais negociados alcançaram valores de mais de R$ 5 milhões
• A economia em aterro representa mais de R$ 1,5 milhões
• As externalidades alcançam mais de R$ 7 milhões, que podem ser publicadas como informações de natureza social e ambiental4, com o objetivo de demonstrar à sociedade a participação e a responsabilidade social da entidade, de acordo com as NORMAS BRASILEIRAS DE CONTABILIDADE - NBC T 15 - INFORMAÇÕES DE NATUREZA SOCIAL E AMBIENTAL.

REFERÊNCIAS
1 VIALLI, Andrea; ADEODATO, Sérgio. Guia de inovação para sustentabilidade em MPE. p. 22, n. 99.
2 UNEP (2010). Framework of global partnership on waste management, Note by Secretariat, available at the website: http://www.unep.or.jp/Ietc/SPC/news-nov10/3_FrameworkOfGPWM.pdf
3 Chalmin P. and Gaillochet C. (2009). From waste to resource, An abstract of world waste survey, Cyclope, Veolia Environmental Services, Edition Economica, France.
4 UNDESA. Shanghai Manual: A Guide for Sustainable Urban Development in the 21st Century, 2012. pp. 36.
5 LEI. 12.305, DE 2 DE AGOSTO DE 2010. Política Nacional de Resíduos Sólidos Available at http://www. planalto. gov. br/ccivil_03/_ato200, p. 7-2010, 2010.
6 HAWKS, Karen. What is reverse logistics? Reverse Logistics Magazine, 2006.
7 IPEA - INSTITUTO DE PESQUISAS APLICADAS. Pesquisa sobre pagamento por serviços ambientais urbanos para gestão de resíduos sólidos. Brasília, 2010.
8 CONSELHO FEDERAL DE CONTABILIDADE-CFC. NBC T 15-Informações de Natureza Social e Ambiental–CFC, Brasília, 2004. 2010.

RLM
Francisco Biazini -
Doutor em Responsabilidade Social em Energia Nuclear pelo Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN), especialista em Segurança da Informação e pós-graduado em Tecnologia em Processamento de Dados

Boanesio Cardoso Ribeiro - Engenheiro Civil formado pela Faculdade de Engenharia de São José dos Campos (1985). Possui pós-graduação em Engenharia de Controle de Poluição pela FAAP. É CEO da empresa Urbam - Urbanizadora Municipal S.A., localizada em São José dos Campos, Brasil.

Ricardo Franceschini Oliani - Nos últimos anos tenho trabalhado diretamente com a temática da inovação tecnológica para a sustentabilidade, logística reversa e indicadores para smartcities. Sou palestrante nos temas Marketing Ambiental, ISO 26000, Gestão de Resíduos Sólidos e Marketing de Conteúdo. Sou fundador e atual diretor da Abraps - Associação Brasileira dos Profissionais de Sustentabilidade; Conselheiro das ONGs - Juntos com você, que trabalha com crowdfunding para projetos de impacto socioambiental; Instituto Baraeté, que trabalha na formação socioambiental e Casa 7 Memórias e Aprendizagens que trabalha na avaliação e sistematização de projetos sociais. Tenho um portal focado na divulgação de ações para preservação e conservação meio ambiente, Mercado Ambiental desde 2001 mantenho uma joint-venture com startups na área de desenvolvimento de apps para a criação de games e aplicativos com conteúdo socioambiental.

Isac Wajc - Graduação em Modalidade Eletrônica de Engenharia Elétrica pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Especialização em Administração de Empresas da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Curso de Gestão e Execução de Projetos de Inovação em Empresas - USP / São Carlos. Elaboração e Coordenação de Projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (FAPESP, FINEP, CNPq, SEBRAE). Linhas de Conferências de Desenvolvimento. Sócio - Proprietário da empresa REDERESÍDUO: Gestão e Comercialização de Resíduos Sólidos e Reciclagem.

Rachel Ann Hauser-Davis - Bacharel em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Mestrado em Química Analítica e Doutorado em Ciências - Químicas Analítica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. É editora associada da revista científica Marine Pollution Bulletin e membro do Conselho Editorial da revista científica Chemosphere, ambos publicados pela Elsevier. Atua como revisora de revistas para mais de 20 revistas internacionais de renome internacional e publicou 45 artigos científicos e um capítulo de livros sobre contaminação ambiental. Atualmente é pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), Rio de Janeiro, Brasil.

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